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O valhacouto de oligarcas



O Dr. Plínio de Arruda Sampaio foi longe em sua indignação de católico Pio XII. Com esta expressão - valhacouto de oligarcas -, ele sentenciou o Senado Federal à pena de extinção. Refúgio de velhacos é muito forte, mas em época eleitoral faz parte da grandiloquência do PSOL. O fato é que, na última legislatura, o Senado Federal protagonizou alguns escândalos que comprometeram o seu conceito popular. A situação é mais delicada porque o Senado é a câmara revisora em um sistema bicameral.

Por definição, ela é a câmara onde sentam os mais velhos e mais experientes, com a missão de corrigir os radicalismos da Câmara dos Deputados, onde sentam os mais jovens, mais aguerridos, e representantes dos vários interesses particulares na República. Esta é a própria origem do Senado moderno, a Câmara dos Lords na Inglaterra, cuja missão é frear a Câmara dos Comuns, a verdadeira assembleia popular.

Os americanos, republicanos sem nobreza, fizeram do Senado o local dos "pais da pátria", com funções semelhantes aos Lords ingleses.

Acrescentaram-lhe, no entanto,como função específica, a representação dos interesses dos estados federados. Para eles, esta é a câmara que deve zelar pelo equilíbrio da Federação, independente da expressão demográfica de cada Estado, o que se expressa na composição proporcional da Câmara dos Deputados.

O Brasil segue esta tradição americana.

Por isso o Senado não é apenas o local político dos mais velhos e dos mais conservadores, mas o local onde se representam os interesses majoritários dos estados-membros.

Os mandatos duram o dobro, oito anos, e a eleição é majoritária, ou seja, um número fixo e igual para todos os estados federados.

Por isso é da natureza dos senadores pensarem solidariamente com os seus governadores e menos com a sua base eleitoral.

Por isso, voto para o Senado não pode estar dissociado do voto no governador do Estado.

Para governar, ele precisará de uma presença atuante e alinhada na câmara alta.


Ubiratan Castro de Araújo

Integrante da Academia de Letras da Bahia e diretor-geral da Fundação Pedro Calmon/SEC ubiratancastrodearaujo@gmail.com


Publicado no Jornal A Tarde - em 19 de agosto, 2010.

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Brasil, Africa do Sul e BRICS

Ubiratan Castro de Araújo*
Sua Excelência, Senador Fernando Collor de Melo
Presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado Brasileiro;
Senhores Senadores,

Agradeço a oportunidade de poder contribuir para o debate parlamentar sobre a política externa do Brasil, muito especialmente sobre a consolidação de um bloco de países emergentes, cuja afirmação representa um importante contraponto à centralidade dos chamados países ricos que compõem o grupo dos países mais ricos do mundo, também chamado de G7. Minha modesta contribuição diz respeito à especialidade da relação bilateral entre o Brasil e a África do Sul, liderança reconhecida na articulação da política continental africana. Ela se fundamenta na experiência acumulada durante 4 anos(2003-2oo7) em que tive a honra de presidir a Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura, que desempenhou um papel auxiliar ao Ministério das Relações Exteriores, em matéria de política africana.
     
I-Introdução.
Minhas primeiras palavras serão para afirmar a importância  do paradigma contemporâneo da complexidade na análise da política internacional. Superada a polaridade estabelecida após a 2ª Guerra Mundial, que impôs o alinhamento automático das nações em dois estados antagônicos, EEUU e União Soviética, a ordem econômica e a governança mundial, passou a vigorar um complexo sistema de blocos concorrentes, não exclusivos, que se constituem em novos lócus de interesses políticos, econômicos, culturais e identitários.

No caso do Brasil, deixamos de fazer parte de um conjunto de países subdesenvolvidos, subordinados a um império informal norte-americano. A afirmação de nossa soberania efetiva-se pela adesão brasileira a vários círculos de articulação regional, em função de interesses particulares. Participamos ativamente da ampliação do chamado G20, para fazer valer os interesses dos países localizados no eixo Sul-Sul; participamos igualmente do MERCOSUL; participamos da articulação dos países da América do Sul; compomos a CPLP, com países de 4 continentes de língua oficial portuguesa; participamos da concertação intitulada IBAS, que nos reúne a duas potencias que representam o eixo Sul-Sul, a Índia, o Brasil e a África do Sul. Mais recentemente criou-se, a partir do Gordon Banks, o conceito do BRIC, Brasil, Rússia, Índia e China, incluída posteriormente a África do Sul, como um fórum de países emergentes, com interesses semelhantes na economia e na governança mundiais.

Este novo bloco regional não reflete nenhuma história especial de cooperação, nenhuma herança cultural comum, tampouco qualquer identidade política dos países que dele participam. A convergência é de interesses conjunturais na negociação da governança mundial. Interessa a todos a regulação do comércio mundial, a circulação de capitais, a representação nos fóruns internacionais de decisão. Evidentemente que a própria dinâmica deste agrupamento desde 2006, com a 1ª reunião de Chanceleres do BRIC, pode constituir no futuro uma aliança mais estável do que uma simples plataforma de reivindicações. Para tanto, é necessário levar em consideração as relações bilaterais entre os países participantes.
Cabe-me destacar as relações entre o Brasil e a África do Sul, no interior deste novo bloco de cooperação internacional, que se orientam, para além de interesses conjunturais, por uma herança cultural comum e pelos imperativos de uma geopolítica do Atlântico Sul.
     
    II-A nova política externa brasileira na era Lula/Celso Amorim.

A nova política africana desenvolvida no governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva a partir do seu primeiro mandato em 2003, orienta-se pela afirmação dos princípios de uma política externa independente em um mundo interdependente, com a inclusão em todas as instancias decisórias dos países do eixo Sul-Sul, ou seja, aqueles que não integram o restrito grupo dos chamados países ricos.

Naturalmente, a política externa para a África buscou a interlocução política com os países africanos, os mais excluídos dos fóruns de decisão internacionais. No entanto, as próprias variáveis da política internacional não explicam os avanços da política africana do Brasil. A política externa para a África foi a exportação da política interna de promoção da igualdade racial instituída desde 2003, largamente negociada com o movimento negro brasileiro.

A conexão Brasil – África é um componente central das convicções reafirmadas pelos militantes negros brasileiros. Proclamar a nossa ancestralidade africana significa rejeitar a escravidão como referência de nossa identidade. Somos portadores de uma herança cultural antiga, originária de grandes civilizações africanas. Como vários outros povos da humanidade fomos vítimas do cativeiro, resistimos, lutamos e vencemos a escravidão.   

Outra característica da opinião pública favorável a uma política de fraternidade em relação à África é o consenso entre os cidadãos negros brasileiros sobre o panafricanismo.  A própria dinâmica da escravidão fez com que os cativos oriundos das mais variadas nações africanas estivessem misturados sob o controle dos mesmos algozes nas terras americanas. Na Bahia, por exemplo, desenvolveu-se uma macro-identidade de “africanos”, uma espécie de grande guarda-chuvas que cobria todos os nascidos no continente africano. Exatamente por isso que o movimento do panafricanismo nasceu nas Américas.  Graças a esta convicção, a atuação brasileira em todos os fóruns interafricanos é marcado pela busca da união em contraposição aos nacionalismos radicais e fratricidas. Isto ficou evidente na II Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora, realizada em Salvador, em 2006.

Amparada nesta ampla mobilização interna, a política africana do governo Lula apresentou resultados largamente positivos. Entre 2003 e 20911 foram abertas 20 embaixadas em África. No mesmo período o presidente da República visitou oficialmente 23 países africanos, ao passo que até então, nenhum presidente da República havia feito um visita oficial à África. Outro indicador importante foi o aumento do intercâmbio comercial entre o Brasil e a África de US$ 5 bilhões em 2002 para US$ 20,5 bilhões em 2010.

Outro compromisso de política interna que qualificou a presença diplomática brasileira em África foi a condenação de toda forma de racismo e colonialismo contra a África Negra e a adoção na prática de uma política de reparação do povo negro, continental e diaspórico, pelas seqüelas deixadas pela escravidão. Internamente, o governo brasileiro praticou uma política de ações afirmativas compensatórias. Externamente o próprio presidente proclamou o direito à reparação, pediu perdão em nome do Estado brasileiro (eu estava presente na Ilha de Gorée, no Senegal) e desenvolveu ações de reparação, tais como o perdão de dívidas externas de países africanos, o investimento em projetos de tecnologia agrícola e instalação de fábricas de remédios. Nenhum outro país americano implementou uma política desta qualidade. Não é sem motivo que o Presidente Wade, do Senegal, proclamou o Presidente Lula com o “Primeiro Presidente Negro do Brasil”.

 A importância da África do Sul, parceira do BRICS, cresce pela liderança que exerce na África Negra, sobretudo sobre os países de língua oficial inglesa que compõem a Comonwelth. Isto se confirma pelo protagonismo da África do Sul na transformação da antiga OUA em União Africana e na formulação do NEPAD, grande plano continental de desenvolvimento. Do ponto de vista político, a África do Sul defende a idéia força que mobiliza todo o continente que é o “Renascimento Africano”. Por isso, agrupada no BRIC, a África do Sul é um parceiro privilegiado para a consolidação de uma política africana brasileira.

O Brasil e a África e o futuro do Atlântico Sul.

Além da solidariedade povo a povo que nos une aos africanos, há também interesses nacionais brasileiros que devem ser beneficiadas por essa irmandade. Não há como fugir da Geopolítica.

Durante 3 séculos e meio de escravidão e tráfico de escravos, o Brasil e a África formavam um bloco econômico colonial. A África forneceu ao Brasil o capital humano responsável pelo sucesso da empresa colonial, pelo povoamento da terra e pela cultura que o diferenciou da metrópole portuguesa. Os historiadores mais consagrados da escravidão colonial são unânimes na qualificação deste Atlântico Negro como um sistema econômico. Luís Felipe Alencastro, professor na Sorbonne-Fr., afirma peremptoriamente:  -Sem Angola não haveria Brasil! Após a escravidão, a recolonização européia da África pelas potências européias determinou o corte definitivo das relações de troca entre as duas margens do Atlântico Negro.

Uma das diretrizes da nova política africana do Brasil é o restabelecimento das comunicações com a África, por cima ou através do antigo Atlântico Negro. Para tanto, é necessário um Atlântico Sul em paz.

 Outra circunstância unilateral que recomenda a “Paz Sul-Atlântica” é a nova projeção da exploração econômica brasileira sobre as águas profundas do Atlântico, para além da antiga plataforma continental. O grande fato novo é a descoberta e o início efetivo da extração do petróleo no sub-solo Atlântico, o chamado “Pré Sal”. A tecnologia empregada, o dimensionamento das reservas e a expectativa de recursos financeiros para o Brasil, caracterizam o “Pré-Sal” como o novo “take off” capaz de tirar definitivamente o Brasil do rol dos países subdesenvolvidos.

Basta olhar para um mapa do Atlântico Sul p0ara perceber que 80% da sua margem ocidental é ocupada pelo Brasil e a margem oriental é ocupada por mais de uma dezena de países, uns maiores, outros menores. Não é difícil antever a necessidade de estabilização da margem africana, de modo a prevenir turbulências que possam afetar a exploração petrolífera brasileira. Basta lembrar da instabilidade gerada na navegação do Índico pela anarquia decorrente da destruição do estado nacional na Somália.    

O sucesso do Pré-Sal exigirá certamente, além de um escudo de defesa a ser provido pelas frotas da nossa Marinha de Guerra, um escudo diplomático poderoso formado por relações de solidariedade entre o Brasil e todos os países da Costa D’África. A Diplomacia brasileira ostenta justamente o galardão de ter conseguido, ao longo de pouco mais de um século, estabilizar as fronteiras terrestres do Brasil. No futuro ela será desafiada a estabilizar esta fronteira atlântica, através ações bilaterais com cada país africano, assim como mediante a negociação em instâncias multilaterais como o BRIC. Não podemos negligenciar o papel que a China desempenhará em tais tratativas, pela sua presença comercial predominante em todos os países da Costa d”África.

* Texto apresentado na Audiência Pública da Comissão de Relações Exteriores e Defesa do Senado Federal, Brasília, em 16 de maio de 2011.

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O Império Contra Ataca



Como poderíamos entender a persistência do lema “Saudades de ACM”, inscrito nos automóveis e veiculado nos jornais e no rádio? Além do natural exorcismo, cabe-nos tentar entender as circunstâncias sociológicas desta permanência. A grande questão a ser compreendida é como é possível a sobrevivência de uma cultura política marcada pela extrema centralização e personalização do poder regional em uma sociedade caracterizada pela abertura de costumes, pelo cosmopolitismo, pela diversidade cultural e pela desconcentração econômica?

Com o advento da República, consolidaram-se vários produtos de exportação, como fumo e charutos, café, carbonados, gado, sisal e o cacau, oriundos das mais diversas regiões do estado. Diferentemente do monolitismo imperial, dominado pela todo poderosa aristocracia sacarina do Recôncavo, a política republicana na Bahia caracterizou-se pela instabilidade das alianças e pela grande competição entre lideranças. Foi o que o senador catarinense Lauro Muller caricaturou: -Na política baiana todos são unanimemente divergentes!.

Registramos então a ascensão de governadores fortes, espécie de imperadores temporários, que constituíram os vários “ismos” da Bahia, Severinismo, Seabrismo, Juracisismo e Carlismo, sucedidos por governadores negociadores, como Antonio Moniz na Primeira República; Otávio Mangabeira e Antonio Balbino após 1945; e mais recentemente Valdir Pires e Jaques Wagner. Olhando para a história universal, a experiência política que mais se assemelha à baiana é o Bonapartismo. Em um quadro de extrema divergência e de equilíbrio de poder entre as elites francesas no tempo da Revolução, o General Bonaparte impôs a sua ditadura pessoal em nome dos interesses gerais da burguesia. Isto fizeram Seabra, Juraci e ACM na Bahia.

A própria diversidade baiana fez implodir todos estes bonapartismos, de tal sorte que, na longa duração, de maneira intermitente, governadores negociadores intercalaram governos autoritários. Estes também experimentaram a fragilidade de alianças efêmeras em um sistema de elites historicamente divergentes. Nas eleições de 2010, estes modelos voltam a se enfrentar. De um lado, o governador Wagner, um negociador profissional, enfrenta um remanescente fracassado do bonapartismo, Paulo Souto e um candidato a Bonaparte III, o ministro Gedel Vieira Lima. Correndo por fora, com grandes chances de futuro está o herdeiro de ACM, o jovem Neto, que já começa a proclamar a sualegitimidade, pronto para aproveitar-se do menor erro do atual governador.

Será que é o destino da Bahia oscilar, qual um pêndulo, entre autoritarismo e negociação?

Olhando para a história, percebemos que apesar da fragilidade das alianças engtre elites, consolidaram-se alguns sistemas políticos centralizados e estáveis. O primeiro exemplo a se considerar é o do Império Romano do Oriente, também chamado de Império Bizantino, que sobreviveu mil anos ao seu congênere de Roma, que sucumbiu diante da desagregação interna e da invasão dos bárbaros. Os imperadores de Constantinopla não descuidaram de toda a sorte de barganhas com seus nobres, mas estabeleceram uma aliança estável com as camadas populares, protegendo uma economia urbana e distribuindo terras com famílias camponesas. Isso lhes garantiu impostos e soldados para a manutenção do império. Outro exemplo mais próximo do Brasil é a experiência do pequeno Reino de Portugal, a partir do século XIV, que se constituiu como o primeiro estado nacional unificado da Europa, negociando com os fidalgos, mas estabelecendo uma relação direta com os “miúdos”: pescadores, marinheiros, comerciantes, artesãos, organizados nos conselhos municipais. Isto possibilitou aos reis portugueses empreenderem o grande projeto nacional dos Descobrimentos,podendo contar com soldados, com marinheiros e com impostos municipais.

A História não dita lições mas dá exemplos para a reflexão. Se o governador Wagner não quiser ser mais um negociador a ser substituído por um Bonaparte, que se inspire em Justiniano e em D. João III e estabeleça uma aliança efetiva com todos os “miúdos” da Bahia.


Ubiratan Castro de Araújo

Integrante da Academia de Letras da Bahia e diretor-geral da Fundação Pedro Calmon/SEC

Artigo publicado no dia 29 de abril de 2010, na página A2, do Jornal A TARDE

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PERPLEXIDADE (Comentário)
A opinião internacional está perplexa diante da brutalidade do massacre de alunos da escola municipal de Realengo no Rio de Janeiro. O assassino está morto, portanto não há o espetáculo da investigação policia para provar a autoria e demonstrar a culpabilidade. O assassino está morto, abatido em flagrante delito. A patologia do assassino é pública e notória, explicitada pela correspondência e pelas mensagens desencontradas deixadas por ele próprio . Os gestos de solidariedade à família, de repulsa e de denúncia caem em um grande vazio porquanto o responsável já morreu, suicidou-se. Contra quem protestar? Contra o Estado, pela falta de segurança nas escolas? Contra isso pode-se argumentar que este tipo de ataque é absolutamente novo em toda a história da criminalidade no Brasil. Contra a venda ilegal de armas? Este é outro filão de protestos. Tudo o que se apresentou foi a prisão de dois camelôs que venderam uma arma pertencente a um traficante oculto. Com a maior cara de inocente um dos presos declarou que, se ele soubesse qual a utilização que seria dada ao revólver, não teria vendido a arma ao assassino.Assim desautoriza qualquer relação entre o delito que praticou de venda ilegal de armas e o hediondo massacre do Realengo.
E agora José? Quem será o bode expiatório deste crime que abalou a opinião pública? O mais óbvio é a loucura do próprio assassino. Autismo?, misoginia?, traumas do bowling? adesão ao Islã?, admiração por Bin  Laden? Estes são temas que podem alimentar o noticiário mas não respondem ao porquê desta violência pensada e executada de maneira fria e inexorável. Resta a perplexidade. O que me chama a atenção é a possibilidade de contato instantâneo à distância entre indivíduos, em um espaço livre de qualquer controle institucional, seja de estados nacionais, de movimentos políticos ou religiosos, independente de qualquer constrangimento de ordem moral. Os loucos podem estimularem-se entre si, circular experiências, treinarem-se e solidarizarem-se! O que sobra a nós outros? A perplexidade, a impotência, o esperneio a êsmo. Resta-nos talvez a iniciativa individual desesperada de combater nesse espaço livre de comunicação, esta conexão mundial da morte, falando da vida e do respeito devido a cada pessoa. É muito pouco, só pra não dizer que nós compactuamos com esta monstruosidade!   Bira   

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A CONEXÃO AFRICANA



Ubiratan Castro de Araújo*

As navegações portuguesas, linha de frente da expansão européia a partir do século XV, operaram uma nova geografia mundial representada pela constituição de novos espaços econômicos articulados pelo capitalismo europeu. Dentre estes blocos, destacou-se o espaço Atlântico, em que a conexão necessária entre o norte europeu (dominante), o leste africano e o oeste americano (colonizados) reuniu fatores econômicos tripolares para a produção de mercadorias e acumulação primitiva de capitais no pólo europeu. Assim bem demonstra a obra clássica de Eric Williams, Capitalismo e Escravidão.
O império português foi uma das conexões específicas, a rigor a primeira, neste espaço atlântico. A navegação transatlântica extraiu violentamente uma massa de trabalhadores africanos, não menos de 30 milhões de pessoas, para a produção de comodities no Brasil, exportadas por sua vez para a metrópole portuguesa que a distribuía nos mercados europeus e retinha os lucros correspondentes. O pacto colonial que vigorou até o início do século XIX, com a independência do Brasil no 2 de Julho de 1823, incluía a costa leste africana. Luís Felipe Alencastro constata acertadamente que sem Angola não existiria Brasil. Assim, o nascente império do Brasil, resultado da desintegração do império atlântico português, insistiu na necessária conexão africana. Entre 1823 e 1850, comerciantes do Rio de Janeiro e da Bahia, persistiram no tráfico de escravos extraídos de duas zonas bem definidas, a Angola dos cariocas e o Golfo da Guiné dos baianos.
Também do ponto de vista político, foram os reinos do Golfo da Guiné, Onim/Lagos e Dahomé, e a Câmara Municipal de Benguela/Angola, os primeiros no mundo a reconhecerem o império brasileiro e os únicos a reivindicarem sua integração ao novo império transatlântico brasileiro. Tal não ocorreu pela intervenção militar britânica que reprimiu o tráfico africano até a sua interrupção total em 1850, para a implantação de uma outra divisão internacional do trabalho centrada na Inglaterra. Era o que François Crouzet chamava de “império informal britânico”.
Assim, nestes 350 de economia atlântica, a história do Brasil era também a história da África e vice-versa. Sem as guerras de Angola não se entende a guerra de Palmares em Pernambuco, sem a jihad islâmica na Grande Guiné não se entende a revolta dos Malês na Bahia.
O objeto desta comunicação é como sobrevive uma conexão social e cultural África-Brasil, cultivada pelas populações remanescentes africanas e as emergentes afro-brasileiras, após a ruptura das trocas econômicas entre os dois lados do Atlântico. Como estas populações afro-brasileiras construíram de memória uma herança africana, o núcleo duro de sua identidade e a principal referência de suas lutas para a afirmação de sua cidadania brasileira, nos termos da diversidade cultural contemporânea [1].
Para enriquecer esta discussão, apresento dois problemas para reflexão:

1.                                   O grande Movimento Abolicionista (1865-1889), o maior e mais amplo movimento político e social do século XIX,  transclassista e plurietnico, apesar de vitorioso, não conseguiu produzir uma integração das maiorias negras na sociedade brasileira. Avalia-se que a pauta do movimento abolicionista restringia-se à extinção da propriedade escrava e apontava para a integração dos libertos como assalariados, sem qualquer menção identitária ou reparatória dos ex-escravos negros. O que se viu após o 13 de Maio foi a discriminação dos libertos como cidadãos de segunda classe.
2.                                   Somente com o advento do governo do Presidente Lula, 115 anos mais tarde, sob o impulso e hegemonia do Movimento Negro Brasileiro, que afirma a herança cultural africana e que proclama como referência a derrotada resistência do Quilombo dos Palmares em 1695, e também no processo de reencontro diplomático do governo brasileiro com os países africanos contemporâneos, foram possíveis os grandes avanços da integração econômica, social e cultural dos cidadãos negros brasileiros.    



[1] Uma avaliação das sobrevivências identitárias dos movimentos sociais e políticos negros nos séculos XIX e XX estão no artigo em anexo: Araújo, Ubiratan Castro de. La conexion atlantique. Histoire, mémoirie et identité.

* Conferência apresentada durante solenidade de lançamento da Coleção Unesco História Geral da África, versão em português, na Reitoria da Universidade Federal da Bahia, em 04 de abril de 2011.